segunda-feira, 20 de abril de 2009

Resenha do livro O Mulato

O romance O Mulato foi escrito por Aluízio Azevedo no ano de 1881. Foi seu segundo livro, marco da sua carreira de escritor, e foi esponsável pelo início do naturalismo no Brasil. O Mulato é uma denúncia do preconceito racial na sociedade maranhense e da corrupção do clero, o livro irritou os comprovincianos de Aluísio a ponto de o escritor resolver mudar-se para a Corte, onde faria sucesso.

O livro inicia com uma descrição fúnebre da cidade de São Luís. “Era um dia abafadiço e aborrecido.” É nessa atmosfera abafada, tanto do ponto de vista climático quanto do convívio social que são apresentadas as personagens. Depois de falar do aspecto sujo e preguiçoso, tanto da cidade quanto da população, que o narrador apresenta a casa de Manuel Pescada.

Manuel Pescada era “um português de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no afilado para o comércio e amigo do Brasil. Tinha uma filha chamada Ana Rosa. Em sua casa, morava a filha e a sogra. Era viúvo. Tinha um comércio e queria fazer sua filha casar-se com o colaborador, o caixeiro Luís Dias, que o narrador descreve como: “O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podridão interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do próprio corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia, adivinhava-se-lhe uma idéia fixa, um alvo para o qual caminhava o acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre um corda tesa. Não desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho desde que lhe parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa -- havia de passar por cima; havia de chegar ao alvo -- enriquecer. Quanto à figura, repugnante: magro e macilento, um tanto baixo um tanto curvado, pouca barba, testa curta e olhos fundos. O uso constante dos chinelos de trança fizera-lhe os pés monstruosos e chatos quando ele andava, lançava-os desairosamente para os lados, como o movimento dos palmípedes nadando. Aborrecia-o o charuto, o passeio, o teatro e as reuniões em que fosse necessário despender alguma coisa; quando estava perto da gente sentia-se logo um cheiro azedo de roupas sujas.”

A descrição é um dos momentos mais claramente naturalistas do romance. As personagens caricaturais dominam o romance. O Realismo-naturalismo vai abusar das caricaturas para ressaltar o lado apodrecido das personagens e da sociedade retratada.

Ana Rosa é uma jovem romântica da época. Sonhava com a chegada do seu príncipe encantado para levá-la da mediocridade da vida em São Luís.

Chega então, Raimundo, jovem advogado, sobrinho do Manuel Pescada e primo da Ana Rosa. Ela se apaixona por ele e ele por ela.
Raimundo saiu ainda pequeno de São Luís para Lisboa. Ele era filho do irmão de Manuel Pescada, José Pedro da Silva com sua escrava negra Domingas. Depois de seu nascimento, José Pedro casou-se com Quitéria Inocência de Freitas Santiago, mulher branca e impiedosa. Enciumada com a atenção especial que José Pedro dedicava ao pequeno Raimundo e à escrava Domingas, Quitéria ordenou que a negra fosse açoitada e que suas partes genitais fossem queimadas.
José Pedro, indignado com tamanha crueldade, leva o filho para a casa do irmão em São Luís. Voltando à fazenda, flagra a mulher e o então jovem e sedutor Padre Diogo em pleno adultério. Enfurecido, José Pedro mata Quitéria e forma um pacto de cumplicidade com o Padre Diogo: esconderão a culpa um do outro. Desgraçado e doente, José Pedro refugia-se na casa do irmão. Ao se restabelecer, resolve voltar à fazenda, mas, no meio do caminho, é assassinado por ordem do Padre Diogo, que já começara a insinuar-se também na casa de Manuel Pescada.

O cônego Diogo é muito bem visto na família de Manuel Pescada. Sempre confiaram nele, principalmente quando viram a solicitude dele em saber como estava a saúde de José Pedro. Ana Rosa sempre se confessou com ele, o que acabou prejudicando o jovem casal no final do romance.

Quando Raimundo desejou saber de sua vida na fazendo, fora lá com seu tio, muito embora não quisesse ir, pois dizia ser mal assombrada. Na viagem, Raimundo pediu a mão de Ana Rosa em casamento e Manuel Pescada negou. Raimundo ficou sem entender o porquê da resposta, já que ele era um homem descente e tinha estudo, mas mais tarde seu tio explicou porque seria. Eles chegaram ao sítio abandonado e durante a noite se deparou com a figura de uma negra velha, curvada, que na viagem de volta à São Luís descobriu ser ela a sua mãe.

Cansado do tratamento incomum dos habitantes da cidade e da própria casa do tio, ele sai de lá e fica alojado numa casa sozinho. Decide voltar para o Rio de Janeiro, mas mandou uma carta para Ana Rosa confessando o seu amor. O amor pela prima o impede de partir. Eles se encontram e Ana Rosa acaba engravidando.

Eles armaram para fugir, mas o cônego Diogo, usando as confissões de Ana Rosa, e com a colaboração do Caixeiro Dias que intercepta as cartas do casal ele consegue impedir a fuga, fazendo com que o Manuel Pescada os surpreenda. Raimundo volta para casa atordoado e quando está abrindo a porta, é atingido nas costas por um tiro disparado por Luís Dias, com uma pistola que o cônego Diogo lhe emprestou.

Ana Rosa, ao saber do ocorrido, desmaiou e no mesmo momento perdeu o filho que esperava de Raimundo.

No final do Livro, seis anos depois aparece Ana Rosa casada com Luís Dias saindo de uma recepção oficial.
"O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha até certo emproamento ricaço e um ar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer vapor o hábito da Rosa; a mulher engordara um pouco em demasia, mas ainda estava boa, bem torneada, com a pele limpa e a carne esperta. Ia toda se saracoteando muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido, e pensando, naturalmente, nos seus três filhinhos, que ficaram em casa a dormir. -- Grand'chaine, double, serré! berravam nas salas. O Dias tomara o seu chapéu no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava pelos dois lá embaixo, Ana Rosa levantara-lhe carinhosamente a gola da casaca. -- Agasalha bem o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!..."

Podemos observar a ironia final, bem a gosto naturalista, coloca por fim toda a idealização romântica de Ana Rosa e Raimundo. O mal triunfa, associado à igreja corrupta e ao comércio burguês.

O Naturalismo é uma escola literária conhecida por ser a radicalização do Realismo, baseando-se na observação fiel da realidade e na experiência. Os romances naturalistas se destacam pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de estar lendo uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita.

Um comentário:

Wemerson Prazeres disse...

AINDA NÃO TIVE A OPORTUNIDADE DE LER ESSE LIVRO,MAS DEPOIS DE SUA RESENHA COM CERTEZA VOU LER.